Estou a poucas horas de mais uma viagem. Lembrei das palavras de Fernando Pessoa, relatando o ato de viajar: “Cada vez que viajo, viajo imenso”. Como será que resgatarei essa emoção, hoje perdida pela banalização das viagens e pela padronização do mundo?
Há algum tempo atrás li no New York Times um interessante artigo – que infelizmente não consigo localizar – sobre o fim da diversidade. Dizia o autor que com o mundo globalizado não mais viajamos, apenas nos transferimos de um lugar para o outro, onde vamos encontrar o mesma forma de vestir, os mesmos restaurantes, hotéis,programas na TV,desejos estampados nos jornais e revistas. Antes – dizia ele – viajar era uma aventura que nos proporcionava sabores, cheiros, gestos e atitudes diferentes. Mergulhavamos em uma outra cultura e por meses não tinhamos notícias do que deixávamos para trás.
Me lembro que na infância ainda cheguei a sentir um pouco deessa emoção da viagem que o autor relatava no texto. Voltar a minha casa, após meses viajando, era uma aventura fantástica.
Havia um ônibus da CTC – Compania estatal que reinava no subúrbio carioca nos anos 70 – caindo aos pedaços. Me lembro, até hoje, do calor insuportável da rodoviária Novo Rio, do motorista passando a marcha arranhada. Havia uma mensagem para que ninguém sentasse ao capot, que ninguém respeitava. Era uma pau-de-arrara urbano, com gente pendurada nas portas. Na roleta, quando cosneguíamos passar, recebíamos umas fichas plásticas coloridas para colocar em uma urna que ficava na porta de saida. Cada rota tinha uma cor.
Os tempos eram outros e a viagem de ônibus era um exemplo total de falta de respeito: As pessoas fumavam dentro dos coletivos, idosos não tinham lugar, deficientes nem pensar. Vinhamos com malas enormes arrastando pelos corredores, pedindo passagem. A viagem da Rodoviária até Oswando Cruz durava cerca de 1 hora e meia e chegar em casa era mais cansativo do que as quatro horas que enfrentávamos na velha estrada União Indústria. Tomávamos plasil para suportar as curvas.
Voltar para casa naquela época era muito mais interessante, apesar do sacrifício. Sem e-mails, celulares e a vida em tempo real da TV, quando voltávamos eram surpreendidos com a longa listagem de mudanças e tragédias pessoais que ocorreram em nossa ausência. Sempre havia um vizinho para nos receber no portão e nos contar os dramas e até da novela, já que em muitas cidades não havia ainda o sinal da TV Globo ou Tupi. Ficar sem TV não era nenhuma tragédia, como hoje em dia. Nem telefone era vital. Só fui ter telefone em casa só nos anos 80 e na época só pensavamos nele porque era extremamente útil em caso de emergência.
Quando voltava de uma viagem reparava nos muros que haviam sido pintados, nas árbores que haviam crescido, nas vozes e corpos dos amigos e amigas da rua que estavam mudando. Tudo era tão diferente que nem parecia o mesmo lugar. Era recebido no final das ferias como um heroí: alguém finalmente conseguiu sair daquele lugar! O que será que ele viu lá fora?
Viajar era coisa planejada durante meses, anos. Guardávamos dinheiro durante muito tempo para realizar o sonho de viajar a um país estrangeiro. Nós, que nem tínhamos TV colorida como poderíamos nos imaginar em um avião ? Uma passagem aérea era como um carro zero, sonho quase inatingível para um menino do subúrbio, filho de ferroviário.
Sonhei durante uma década em conhecer a Disney e guardava em uma caixa de sapatos recortes de revistas e cartas de pessoas que nunca cheguei a conhecer pessoalmente. Era minha única ligação com o exterior. Os amigos de correspondencia me contavam como era o mundo, o som vinha do rádio de ondas curtas – A voz da América – e no cinema mergulhavamos naquela rua que nunca viveríamos, tão diferente da nossa sem asfalto perfeito, sem jardins floridos e sem muros. Carrego comigo até hoje essas cartas.
Voltávamos até com cheiro diferente. Lembro-me de quendo fui ao Pará aos 12 anos voltei com cheiro de Patchouli, minha avó com uma bolsa de semente de açai. Quando voltava de Juiz de Fora trazia na mala o cheiro da linguiça que só tinha por lá, com queijos e frios. Os vizinhos e amigos ficavam fascinados com a abertura das malas – que era um ato de descobertas e narrativas fenomenais. Era nossa hora de relatar o que havia visto, comido e vivido.
Estou a poucas horas de uma viagem, a trabalho, depois de centenas que fiz nos últimos anos e confesso que vou sem emoção dos velhos tempos. Viajar virou rotina, muitas vezes chata e cansativa. Vou me trasferir para Buenos Aires por alguns dias depois de ter me transferido para Miami e Waswhington, onde transitei por corredores de shoppings que possuem o mesmo cheiro e cores. Comi nos mesmos restaurantes, compre as roupas das marcas que todo mundo usa, assisti seriados e programas que assisto em casa, em Teresópolis, mas que também poderia ser Madalena, Recife ou Sâo Paulo. Fui nas mesmas lojas de conveniência, bem conveniente instaladas nas esquinas, tomei sorvete – da mesma marca, é claro. O que salva a viagem sao os amigos que fizemos pelo caminho e que nas viagens podemos reencontrar.
Sempre tento fazer um roteiro local, mas de tão globalizados, parecem prontos para delivery. Queria muito poder resgatar aquela emoção da viagem e toda as sensações que um outro lugar puder me dar. Será que vamos algum dia voltar a viajar ou será um caminho sem retorno como foi a troca das cartas pelos e-mails?
Resgatar a emoção da viagem e ensinar as futuras gerações que o mundo na diversidade das culturas é muito mais interessante é um desafio – Deixemos de lado os que preferem empacotar, selar e vender as emoções em caixas pronta para consumo. Viver e viajar – sentindo a vida de todas as maneiras- é muito melhor do que isso.
Em abril de 1973 o sol brilhava forte no Rio. O calor do trem, o cheiro da velha maleta de couro que meu avô esfregava nas pernas dos passageiros, quase a altura de meus olhos, não me sai da memória. No radinho de um negro alto, na porta do trem uma voz infantil ecoava no vagão lotado “We’ve been together for such a long time now …Music, music and me” - estivemos juntos por longo tempo, eu e essa música.
Eu não sabia quem cantava, apenas que havia escutado na TV, em uma novela, “Carinhoso”. Para quem não viveu aqueles anos preciso contar que a novela de Lauro Cesar Muniz foi o grande sucesso preto e branco entre 73 e 74 no Brasil. A história conta o drama quase mexicano da jovem Cecília (Regina Duarte), na tentativa de esquecer as desilusões com Eduardo (Marcos Paulo), decide ser aeromoça e viver em Nova Iorque. O jovem Eduardo era um típico playboy carioca dos anos 70, filho dos patrões de Cecília. Três anos depois, Cecília volta ao Rio de Janeiro, decidida a reconquistar seu grande amor, apesar da oposição da família do rapaz – sobretudo, do irmão mais velho de Eduardo, apaixonado por ela.
“Music and Me” era o tema desse amor. Apesar do roteiro de lágrimas, do velho folhetim latino americano da filha de empregados apaixonada pelo filho do patrão a história foi baseada no filme americano Sabrina, comédia romântica dirigida por Billy Wilder de 1954, estrelado por Audrey Hepburn.
Music and me ficou na minha cabeça por muitos anos, assim como Regina Duarte, a música tema de Pixinguinha “Carinhoso” e muitas imagens de Nova York. Logo depois, ainda em 73 aquela mesma voz, doce e infantil cantava Ben, nos embalando em romances e adornada de ternura. A música tema de um filme do mesmo nome, havia sido gravada pelo adolescente Michael Jackson para a gravadora Motown em 1972.
Outra lembrança que Jackson deixou em minha geração foi a espetacular abertura com músicas que eram usadas por um cara muito doido chamado Monsieur Lima (ou Messiê Limá) tinha na TV Tupi. Foi o primeiro programa a apresentar uma novidade chamada videoclip. Era o ipod da minha infância. Para nós, pobres garotos do subúrbio carioca que vivíamos com o radinho de FM colado nos ouvidos esperando as novas músicas nos programas da rádio cidade era a conexão que tínhamos com os jovens também pobres, negros e suburbanos de Chicago, Los Angeles e Detroit. Eram sucessos que marcaram nossos primeiros passos na adolescencia, nos bailes do Marã em Marechal Hermes, do Clube dos Sargentos em Campinho: Lookin’ Through the Windows de 1972, Get It Together de 1973 e Dancing Machine de 1974. Eramos Soul e calças boca de sino.
O desaparecimento de Jackson, o fim de uma vida atormentada e confusa nos faz lembrar que a herança que deixamos as próximas gerações não é baseada apenas em prédios, terras, nome de família e dinheiro no banco. Deixamos músicas para as próximas gerações, sons, movimentos lunares, aperto no coração ao escutar na rádio a nossa musica tema, as músicas dos nossos primeiros namoros, dos beijos escondidos e roubados, das rádios FMs desintonizadas e histéricas. Deixamos a marca de nossa juventude nos discos de vinil arranhados.
Deixamos que nossa geração seja lembrada por pessoas como Jackson – confusas e atormentadas como todos aqueles anos, como toda essa geração que fez Vietnam, que construiu e destruiu a guerra fria, que derrubou o muro de Berlin, que dançou com ele, com travolta nos embalos de sábado a noite, nas tardes quentes de verão, menina veneno, você não soube me amar. Uma geração que levou um operário ao poder, venceu a ditadura, desafiou a censura e os censores.
Lá se vai Jackson, mais um que leva um pedaço dessa quebra-cabeças dos anos 70 e 80, que leva com ele pedaços de nossa juventude, lembranças de nossos passos, jeito de vestir, de dançar e amar. E o que restou de nós vai finalmente se decompondo, como aconteceu com as gerações anteriores, fragmentando-se, virando lembranças e videos no youtube.
Triste, inevitável, misterioso como a vida. We’re as close as two friends can be – como dois amigos podem ser, eu e a música, toda a música que existir em mim.
Music and Me – Michael Jackson cantando a trilha sonora da nossa geração
Cenas da novela “O Carinhoso” 1973/74
Ben – 1972
Uma das primeiras lembranças do carnaval que tenho é de um quintal, nos fundos de uma casa em Cascadura, onde comprávamos bexigas para completar nossa fantasia de bate-bola ou morcego. Estávamos no início dos anos 70 e a zona forte fervilhava no carnaval de rua. Meus primos mais velhos desfilavam orgulhosos no “Cacique de Ramos” e falavam mal da turma do “Bafo da Onça” outro dos tradicionais blocos da cidade. Meus olhos brilhavam quando aquela centenas de indios e indias apaches cruzavam a rua florentina em direção a estação, de onde saiam os trens lotados para a Central. As escolas de samba na época ainda não tinham virado atração principal e os blocos reinavam os quatro dias, arrastando multidões.
O carnaval tinha cheiro de bexiga de boi pendurada no varal para secar, de máscara de gesso e jornal, de roupa de baiana arrastada no asfalto. Eu, ainda menino, seguia com meus olhos pela grade do muro as tribos do cacique descendo a ladeira. Ramos era minha praia, literalmente, de águas ainda limpas, para onde íamos em ônibus lotados com uma bolsa de sanduiches de pão com ovo, limonada e café. Era um inferno as longas filas em Olaria, os corpos suados e salgados, salpicando areia nos assentos, mas em nenhuma época posterior ir a praia seria tamanha aventura. Assim como o Cacique, Ramos foi morrendo aos poucos até virar somente lembrança.
Mais de 30 anos depois, me vejo na Avenida Rio Branco, agora sem as barras de ferro do velho muro da rua florentina, vendo o Cacique passar: um grupo de apaches faz uma fogeira e salta, cantam e dançam em torno dos fogos, trimulam bandeiras. O povo parece gostar, as novas gerações compram roupas e camisas e entram nas alas e bateria. Quando eu era criança o bloco chegou a ter 10 mil participantes e depois foi caindo, junto com o carnaval de rua e quase desapareceu nos anos 80. Se morresse levaria boa parte da história do carnaval. Muitos dos artistas do samba, ao gravarem seus discos, iam procurar sambas novos na roda do Cacique. Fundado em 1961, lá foi o laboratório de Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila, Almir Guineto, Jovelina Pérola Negra e outros. Beth Carvalho, a madrinha, nos deu sambas sensacionais.
“O Cacique de Ramos é um dos responsáveis pela última grande guinada na história do samba”, já disse Marcelo D2. Pra mim, nesse carnaval de 2009, vendo a Rio Branco lotada e vestida de indio, não tive dúvidas. O cacique é a minha tribo.
Documentário sobre o bloco “Cacique de Ramos”
Beth Carvalho canta “Vou festejar” (Jorge Aragão / Dida / Neoci) Cacique de Ramos no Fantástico (Globo) em 1978

