A partir de hoje (15), as 300 escolas da rede pública que vão participar do programa UCA (Um Computador por Aluno) começam a receber os laptops. Esse é um dos programas ” sociais” mais importantes do país, na minha opinião. Precisamos diminuir o número de estudantes sem acesso a informática. Uruguai saiu na frente e já obteve ótimos resultados.

A força que nos Alerta

Publicado: 14, 2010 por mafc em Notícias

Ninguém pode negar que a vida de Benedita da Silva daria um filme, daqueles que Hollywood costuma premiar, que Cannes adoraria e que fariam vibrar todos os leões de ouros e quiquitos, de todos os festivais. Seria uma história simples, humana, que de tão conhecida prefiro aqui nem tentar roteirizar. Deixo a tarefa para produtores e diretores, que de certo, inspirados em uma boa biografia, sem muito esforço, nos deixariam uma obra prima, com todos os conteúdos que costumar emocionar: superações, amores perdidos, poder e fé.

Eu pediria, no entanto, para que esses biógrafos, diretores, produtores e artistas esperassem os próximos meses ou anos, porque o mais emocionante ainda está por vir. As histórias de superação na juventude são mais comuns e de tão divulgadas já nem sempre rendem boas histórias para a telinha.

Relutei um pouco para falar dela – quando se tem uma relação profissional e de amizade com alguém ficamos suspeitos aos olhos dos outros, mas vou arriscar algumas linhas porque como vida de político virou domínio público, também acredito ter direito a dar palpites, como qualquer cidadão. É verdade que sou privilegiado pela proximidade.

A disputa interna no PT pelo Senado é um bom exemplo de que uma biografia agora seria prematura. O que Benedita fará nas próximas semanas ao vencer um jovem Prefeito namorado da mídia e que parece saído de um comercial da Calvin Klein é o que mais vai empolgar o leitor dessa biografia que ainda não foi publicada. Vencendo, Benedita fará história no Senado, colocando o Brasil mais próximo da África, dos negros-norte americanos, das mulheres e dos milhões de jovens que nascem em lugares pobres e sem futuro; da parceria com Nelson Mandela e Obama. Será vitória da consolidação das biografias de mulheres negras que diariamente vivem nas centenas de favelas brasileiras.

É verdade que Benedita já esteve lá – em épocas muito mais difíceis onde nem banheiro para mulheres parlamentares existia – mas agora será um momento especial, na maturidade de ex-governadora e ministra, em um mundo onde o país mais poderoso tem um negro no mais alto cargo de comando.

Para não dizer que estou apenas jogando a carta da “mulher negra”, posso dizer que Benedita está além desse debate restrito a raça e gênero. Ao contrário das lideranças negras norte-americanas, muito segregadas ainda na religião e na questão racial, ela hoje lidera uma equipe multirracial, étnica e religiosa, com uma agenda muito mais avançada que seus parceiros internacionais, incorporando as lutas LGBT, de deficientes, da imigração, do enfrentamento ao tráfico de pessoas e outras questões ainda inéditas no Senado.

É lógico que o outro candidato do PT não possui essa capacidade de representar o Rio internacionalmente, primeiro porque tem um projeto local de poder, segundo porque tem um projeto pessoal de poder.  O Rio já possui uma representação no senado tímida em relação a agenda Internacional e distante do que eu precisamos às vésperas de uma copa do mundo e jogos olímpicos. Lula com certeza cumprirá uma agenda internacional nos próximos anos e Benedita será a melhor parceira para essa tarefa, por afinidades, por história de vida, por superações e por experiência e prestigio no exterior.

Nos próximos dias o PT vai mudar essa biografia, que tantas vezes mudou sua vida para seguir as decisões partidárias, que esteve sempre fiel ao projeto de construção partidária. O partido vai decidir entre história ou aventura, entre projeto local e pessoal ou um trabalho sério de representação do Estado no Brasil e no Mundo.

Essa mulher é a história viva do PT. Essa é a força que nos alerta.

freiras2

Estou a poucas horas de mais uma viagem. Lembrei das palavras de Fernando Pessoa,  relatando o ato de viajar: “Cada vez que viajo, viajo imenso”.  Como será que resgatarei essa emoção, hoje perdida pela banalização das viagens e pela padronização do mundo?

Há algum tempo atrás li no New York Times um interessante artigo – que infelizmente não consigo localizar – sobre o fim da diversidade. Dizia o autor que com o mundo globalizado não mais viajamos, apenas nos transferimos de um lugar para o outro, onde vamos encontrar o mesma forma de vestir, os mesmos restaurantes, hotéis,programas na TV,desejos estampados nos jornais e revistas. Antes – dizia ele – viajar era uma aventura que nos proporcionava sabores, cheiros, gestos e atitudes diferentes. Mergulhavamos em uma outra cultura e por meses não tinhamos notícias do que deixávamos para trás.

Me lembro que na infância ainda cheguei a sentir um pouco deessa emoção da viagem que o autor relatava no texto. Voltar a minha casa, após meses viajando, era uma aventura fantástica.

Havia um ônibus da CTC – Compania estatal que reinava no subúrbio carioca nos anos 70 – caindo aos pedaços. Me lembro,  até hoje, do calor insuportável da rodoviária Novo Rio, do motorista passando a marcha arranhada. Havia uma mensagem para que ninguém sentasse ao capot, que ninguém respeitava. Era uma pau-de-arrara urbano, com gente pendurada nas portas. Na roleta, quando cosneguíamos passar, recebíamos umas fichas plásticas coloridas para colocar em uma urna que ficava na porta de saida.  Cada rota tinha uma cor.

Os tempos eram outros e a viagem de ônibus era um exemplo total de falta de respeito: As pessoas fumavam dentro dos coletivos, idosos não tinham lugar, deficientes nem pensar.  Vinhamos com malas enormes arrastando pelos corredores, pedindo passagem. A viagem da Rodoviária até Oswando Cruz durava cerca de 1 hora e meia e chegar em casa era mais cansativo do que as quatro horas que enfrentávamos na velha estrada União Indústria. Tomávamos plasil para suportar as curvas.

Voltar para casa naquela época era muito mais interessante, apesar do sacrifício.  Sem e-mails, celulares e a vida em tempo real da TV, quando voltávamos eram surpreendidos com a longa listagem de mudanças e tragédias pessoais que ocorreram em nossa ausência. Sempre havia um vizinho para nos receber no portão e nos contar os dramas e até da novela, já que em muitas cidades não havia ainda o sinal da TV Globo ou Tupi. Ficar sem TV não era nenhuma tragédia, como hoje em dia. Nem telefone era vital. Só fui ter telefone em casa só nos anos 80 e na época só pensavamos nele porque era extremamente útil em caso de emergência.

Quando voltava de uma viagem reparava nos muros que haviam sido pintados, nas árbores que haviam crescido, nas vozes e corpos dos amigos e amigas da rua que estavam mudando. Tudo era tão diferente que nem parecia o mesmo lugar. Era recebido no final das ferias como um heroí: alguém finalmente conseguiu sair daquele lugar! O que será que ele viu lá fora?

Viajar era coisa planejada durante meses, anos. Guardávamos dinheiro durante muito tempo para realizar o sonho de viajar a um país estrangeiro. Nós, que nem tínhamos TV colorida como poderíamos nos imaginar em um avião ? Uma passagem aérea era como um carro zero, sonho quase inatingível para um menino do subúrbio, filho de ferroviário.

Sonhei durante uma década em conhecer a Disney e guardava em uma caixa de sapatos recortes de revistas e cartas de pessoas que nunca cheguei a conhecer pessoalmente. Era minha única ligação com o exterior. Os amigos de correspondencia me contavam como era o mundo, o som vinha do rádio de ondas curtas – A voz da América – e no cinema mergulhavamos naquela rua que nunca viveríamos, tão diferente da nossa sem asfalto perfeito, sem jardins floridos e sem muros. Carrego comigo até hoje essas cartas.

Voltávamos até com cheiro diferente. Lembro-me de quendo fui ao Pará aos 12 anos voltei com cheiro de Patchouli, minha avó com uma bolsa de semente de açai. Quando voltava de Juiz de Fora trazia na mala o cheiro da linguiça que só tinha por lá, com queijos e frios. Os vizinhos e amigos ficavam fascinados com a abertura das malas – que era um ato de descobertas e narrativas fenomenais. Era nossa hora de relatar o que havia visto, comido e vivido.

Estou a poucas horas de uma viagem, a trabalho, depois de centenas que fiz nos últimos anos e confesso que vou sem emoção dos velhos tempos. Viajar virou rotina, muitas vezes chata e cansativa. Vou me trasferir para Buenos Aires por alguns dias depois de ter me transferido para Miami e Waswhington, onde transitei por corredores de shoppings que possuem o mesmo cheiro e cores. Comi nos mesmos restaurantes, compre as roupas das marcas que todo mundo usa, assisti seriados e programas que assisto em casa, em Teresópolis, mas que também poderia ser Madalena, Recife ou Sâo Paulo. Fui nas mesmas lojas de conveniência, bem conveniente instaladas nas esquinas, tomei sorvete – da mesma marca, é claro. O que salva a viagem sao os amigos que fizemos pelo caminho e que nas viagens podemos reencontrar.

Sempre tento fazer um roteiro local, mas de tão globalizados, parecem prontos para delivery. Queria muito poder resgatar aquela emoção da viagem e toda as sensações que um outro lugar puder me dar. Será que vamos algum dia voltar a viajar ou será um caminho sem retorno como foi a troca das cartas pelos e-mails?

Resgatar a emoção da viagem e ensinar as futuras gerações que o mundo na diversidade das culturas é muito mais interessante é um desafio  – Deixemos de lado os que preferem empacotar, selar e vender as emoções em caixas pronta para consumo. Viver e viajar – sentindo a vida de todas as maneiras-  é muito melhor do que isso.