“Music and me” e o que restou de nós.

2009 Julho 8
by mafc

Em abril de 1973 o sol brilhava forte no Rio. O calor do trem, o cheiro da velha maleta de couro que meu avô esfregava nas pernas dos passageiros, quase a altura de meus olhos, não me sai da memória. No radinho de um negro alto, na porta do trem uma voz infantil ecoava no vagão lotado “We’ve been together for such a long time now …Music, music and me”  - estivemos juntos por longo tempo, eu e essa música.

Eu não sabia quem cantava, apenas que havia escutado na TV, em uma novela, “Carinhoso”.   Para quem não viveu aqueles anos preciso contar que a novela de Lauro Cesar Muniz  foi o grande sucesso preto e branco entre 73 e 74 no Brasil.  A história conta o drama quase mexicano da jovem Cecília (Regina Duarte), na tentativa de esquecer as desilusões com Eduardo (Marcos Paulo), decide ser aeromoça e viver em Nova Iorque. O jovem Eduardo era um  típico playboy carioca dos anos 70, filho dos patrões de Cecília. Três anos depois, Cecília volta ao Rio de Janeiro, decidida a reconquistar seu grande amor, apesar da oposição da família do rapaz – sobretudo, do irmão mais velho de Eduardo, apaixonado por ela.

“Music and Me” era o tema desse amor. Apesar do roteiro de lágrimas, do velho folhetim latino americano da filha de empregados apaixonada pelo filho do patrão a história foi baseada no filme americano Sabrina, comédia romântica dirigida por Billy Wilder de 1954, estrelado por Audrey Hepburn.

Music and me ficou na minha cabeça por muitos anos, assim como Regina Duarte, a música tema de Pixinguinha “Carinhoso” e muitas imagens de Nova York.  Logo depois, ainda em 73 aquela mesma voz, doce e infantil cantava Ben, nos embalando em romances e adornada de ternura. A música tema de um filme do mesmo nome, havia sido gravada pelo adolescente Michael Jackson para a gravadora Motown em 1972.

Outra lembrança que Jackson deixou em minha geração foi a espetacular abertura com músicas que eram usadas por um cara muito doido chamado Monsieur Lima (ou Messiê Limá) tinha na TV Tupi. Foi o primeiro programa a apresentar uma novidade chamada videoclip.  Era o ipod da minha infância.  Para nós, pobres garotos do subúrbio carioca que viviamos com o radinho de FM colado nos ouvidos esperando as novas músicas nos programas da rádio cidade era a conexão que tinhamos com os jovens também pobres, negros e suburbanos de Chicago, Los Angeles e Detroit.  Eram sucessos que marcaram nossos primeiros passos na adolescencia, nos bailes do Marã em Marechal Hermes, do Clube dos Sargentos em Campinho: Lookin’ Through the Windows de 1972, Get It Together de 1973 e Dancing Machine de 1974. Eramos Soul e calças boca de sino.

O desaparecimento de Jackson ( a melhor palavra para quem deixa o palco) é também o fim de uma vida atormentada e confusa nos faz lembrar que a herança que deixamos as próximas gerações não é baseada apenas em prédios, terras, nome de família e dinheiro no banco. Deixamos músicas para as próximas gerações, sons, movimentos lunares, aperto no coração ao escutar na rádio a nossa musica tema, as músicas dos nossos primeiros namoros, dos beijos escondidos e roubados, das rádios FMs desintonizadas e histéricas. Deixamos a marca de nossa juventude nos discos de vinil arranhados.

Deixamos também que nossa geração seja lembrada por pessoas como Jackson – confusas e atormentadas como todos aqueles anos, como toda essa geração que fez Vietnam, que construiu e destruiu a guerra fria, que derrubou o muro de Berlin, que dançou com ele, com travolta nos embalos de sábado a noite, nas tardes quentes de verão, menina veneno, você não soube me amar. Uma geração que levou um operário ao poder, venceu a ditadura, desafiou a censura e os censores.

Lá se vai Jackson, mais um que leva um pedaço dessa quebra-cabeças dos anos 70 e 80, que leva com ele pedaços de nossa juventude, lembranças de nossos passos, jeito de vestir, de dançar e amar. E o que restou de nós vai finalmente se decompondo, como aconteceu com as gerações anteriores, fragmentando-se, virando lembranças e videos no youtube.

Triste, inevitável, misterioso como a vida. We’re as close as two friends can be – como dois amigos podem ser, eu e a música, toda a música que existir em mim.

Music and Me – Michael Jackson cantando a trilha sonora da nossa geração

Cenas da novela “O Carinhoso” 1973/74

Ben – 1972

A reinvenção do cacique e outras tribos

2009 Fevereiro 25
by mafc

 

caciqueUma das primeiras lembranças do carnaval que tenho é de um quintal, nos fundos de uma casa em Cascadura, onde comprávamos bexigas para completar nossa fantasia de bate-bola ou morcego. Estávamos no início dos anos 70 e a zona forte fervilhava no carnaval de rua. Meus primos mais velhos desfilavam orgulhosos no “Cacique de Ramos” e falavam mal da turma do “Bafo da Onça” outro dos tradicionais blocos da cidade. Meus olhos brilhavam quando aquela centenas de indios e indias apaches cruzavam a rua florentina em direção a estação, de onde saiam os trens lotados para a Central.  As escolas de samba na época ainda não tinham virado atração principal e os blocos reinavam os quatro dias, arrastando multidões.

O carnaval tinha cheiro de bexiga de boi pendurada no varal para secar, de máscara de gesso e jornal, de roupa de baiana arrastada no asfalto. Eu, ainda menino, seguia com meus olhos pela grade do muro as tribos do cacique descendo a ladeira. Ramos era minha praia, literalmente, de águas ainda limpas, para onde íamos em ônibus lotados com uma bolsa de sanduiches de pão com ovo, limonada e café. Era um inferno as longas filas em Olaria, os corpos suados e salgados, salpicando areia nos assentos, mas em nenhuma época posterior ir a praia seria tamanha aventura. Assim como o Cacique, Ramos foi morrendo aos poucos até virar somente lembrança.

Mais de 30 anos depois, me vejo na Avenida Rio Branco, agora sem as barras de ferro do velho muro da rua florentina, vendo o Cacique passar: um grupo de apaches faz uma fogeira e salta, cantam e dançam em torno dos fogos, trimulam bandeiras. O povo parece gostar, as novas gerações compram roupas e camisas e entram nas alas e bateria. Quando eu era criança o  bloco chegou a ter 10 mil participantes e depois foi caindo, junto com o carnaval de rua e quase desapareceu nos anos 80. Se morresse levaria boa parte da história do carnaval. Muitos dos artistas do samba, ao gravarem seus discos, iam procurar sambas novos na roda do Cacique. Fundado em 1961, lá foi o laboratório de Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila, Almir Guineto, Jovelina Pérola Negra e outros. Beth Carvalho, a madrinha, nos deu sambas sensacionais.

“O Cacique de Ramos é um dos responsáveis pela última grande guinada na história do samba”, já disse Marcelo D2. Pra mim, nesse carnaval de 2009, vendo a Rio Branco lotada e vestida de indio, não tive dúvidas. O cacique é a minha tribo.

Documentário sobre o bloco “Cacique de Ramos”

Beth Carvalho canta “Vou festejar” (Jorge Aragão / Dida / Neoci) Cacique de Ramos no Fantástico (Globo) em 1978

“Esquenta” da Imperatriz com samba do cacique

Ala Guerreiros

Próxima parada, Central do Brasil

2009 Janeiro 30
by mafc

dpedro40al

No início dos anos 70 meu pai me trouxe de volta ao Rio após cinco anos vivendo próximo a velha estação de Juiz de Fora. Pegávamos desde 1965 a “littorina”, trem de madeira que ligava o Rio às montanhas de Minas Gerais. Meu pai, ferroviário, estava orgulhoso de trabalhar no edicício D. Pedro II, a Central do Brasil, de onde saiam e chegavam todos os trens da capital do país. De lá, na década anterior havia presenciado o comício das reformas de base, com João Goulart, que antecedeu o golpe militar. A Central era o coração do Brasil.

O tempo passou, meu velho partiu da estação bem antes de ver sua “Central” nos cartazes do Oscar. Sempre que passava por lá confesso que sentia uma mistura de sentimentos: boas e más lembranças da vida difícil de filho de ferroviário.  O prédio me lembra gloriosos tempos da ferrovia, do orgulho dos funcionários públicos, das mesas de jacarandá e pesos de cristal para segurar os papeis. Como em um filme me vejo de novo visitando a “repartição” onde trabalhavam meu pai e avô, quando ainda meus olhos não alcançavam as mesas, o cheiro da goma arábica que selava as cartas, o papel carbono e a música das máquinas de escrever. Muito correto meu pai jamais deixou que eu levasse para casa nem mesmo envelopes usados e canetas da “repartição” Dizia ele que eram coisas públicas, que deveríamos ter carinho com isso. Atribuo a ele minha educação para o serviço público e a minha indignação com o desperdício e com funcionários que penduram o paletó na cadeira, sem trabalhar. 

Agora, aos 43 anos recebo a notícia que a “repartição” que coordeno no estado será transferida para a Central do Brasil e que vou circular e trabalhar no mesmo lugar que o velho Adalberto e seu Euclides – meu avô, viveram toda suas vidas profissionais. Foi lá, na plataforma, que meu pai conheceu minha mãe,  de onde trago as primeiras lembranças e noção de trabalho e vida. Ele ficou tão relacionado aquela estação que ganhou o apelido de “central” entre nossos vizinhos da distante estação de Oswaldo Cruz, onde viveria o resto de sua curta vida. 

Com certeza vou ter ar condicionado, computadores e tudo que outras gerações que trabalhavam por lá nunca tiveram. Não verei mais goma arábica, nem escutarei a orquestra das máquinas, nem a sirene anunciando o final do expediente. Minha próxima parada não é saudosismo e nem passado. A estação segue lá com toda sua beleza art-deco, com suas paredes de madeira nobre, com corredores de mármore. Centenas viveram e passaram por lá. Muitos esbanjadores, mas também muitos como seu Adalberto, que sabiam que todo aquele patrimônio era fruto do suor de milhões de trabalhadores.

Volto a Central, dessa vez sozinho, sem a mão firme e madura a me carregar, sem papel carbono e carimbos nas mesas que agora estão visíveis. Minha próxima estação é o desafio de honrar todos aqueles que passaram por lá, que tiveram seus sonhos e que partiram, como o “seu” Adalberto sem ver o trem do futuro chegar.