O Papel do Estado
O terno bem alinhado do senhor sentado na entrada do Palácio Guanabara não deixava dúvidas que seria uma pessoa muito preocupada com aparência. “Seu” Silva diz ter sido amigo´do ex-governador Brizola e que só vinha recorrer a nossa Ouvidoria porque está necessitando de uma doação do Estado: quer um apartamento de dois quartos em Copacabana, com ar condicionado. ” tem que ser em Copacabana – exclamou -”porque eu não moro em qualquer lugar !”
Embora o dia-a-dia de uma ouvidoria da área de direitos humanos e assistência social possa ser “barra pesada”, com relatos de tragédias pessoais e abusos dos agentes do governo, há também casos que nos espantam, pelo lado irônico, pela criatividade e até pela loucura. O papel do Estado é sempre o pano de fundo dessas situações. Afinal até onde vai o limite do Estado ?
Um dos casos mais interessantes é o da Dona Leylá – uma senhora de classe média que se apresentou na subsecretaria de direitos humanos solicitando apoio para fazer um exame de corpo e delito porque havia sido estuprada pela Rosinha Garotinho. Quando perguntada como foi a situação ela respondeu sussurrando que não poderia contar detalhes porque a ex-governadora havia implantado um chip em suas costas e que estaria sendo monitorada.
Um dia desses abri uma carta e me espantei com o conteúdo: um servidor denunciando que estava sofrendo perseguição do Mossad – o serviço secreto de israel. Um e-mail também me relatou um complô formado por taxistas e verdureiros de Nova Frigurgo que estariam ameaçando um gari. Um outro auto intitulado “poeta perseguido” de 28 anos dizia ter sido exilado nos anos 60 – e por ser comunista acredita estar sendo procurado pelo DOPS.
Em geral todos são atendidos – mesmo diante do espanto dos funcionários – e os casos são registrados, nem que seja ajudar algum pesquisador a mapear o papel do Estado e de um Palácio de governo no imaginário coletivo: um lugar onde os poderosos podem te proteger e em muitos casos anular todas as ações de instâncias do governo. É comum pedidos de empregos, vagas em escolas, hospitais – uma vereadora chegou a me dizer “ahh essa informação de como marcar consulta por telefone eu tenho meu filho – eu quero é uma solução política para meu problema” – ou seja, ela queria que as regras só fossem válidas para os cidadãos ” comuns” e como pagamento adiantado puxou a agenda e disse ” vou fazer uma moção de aplauso pra você”, jogando com uma possível vaidade do ouvidor. Se deu mal.
Diante de décadas de funcionamento torto, com distribuição de favores o Estado parece uma grande casa da mãe joana. Chego a acreditar que o amigo do Brizola não está tão louco assim. Dar um apartamento de dois quartos em Copacabana para um amigo até parece modesto perto do que certos políticos fazem com o dinheiro público.
Embora orgulhoso de participar de uma gestão que está se posicionando corretamente diante das loucuras, ainda me espanto com o papel do Estado na cabeça das pessoas – pobres e ricas – que raramente pensam no coletivo. O Estado ainda é sempre a solução para nossos fracassos.
Marco Fonseca
Um primor de texto, como sempre. Fonseca é um dos melhores cronistas que eu conheço.
Ps do Ps:
O texto é do Conect@ndo pessoas. só que lá não tem comentarios.
re-abraço.