O desafio de Cory
Em fevereiro de 2006 voltei animado a Newark para apoiar a candidatura de Cory A. Booker, um dos mais brilhantes políticos norte-americanos da minha geração. Havia participado ativamente de sua campanha em 2002, mas perdemos por pouco em uma histórica campanha que o projetou nacionalmente. Seis meses após sua posse fui a uma de suas audiências públicas em uma escola, ver como ele aplicaria seus conceitos de participação popular e contato direto com os cidadãos. Compartilhamos os mesmos sonhos e idéias sobre o papel do Estado e democracia participativa.Quando caminhávamos em Ipanema, após sua derrota em 2002, Cory me confidenciou que sonhava em ser Prefeito para mudar a forma de fazer política em sua cidade. Ele, como vereador, estava enojado com a administração Sharpe James que há 16 anos era prefeito. Cory sentiu na pele a baixaria da campanha e da máquina de James, quando a mídia registrou que policiais e funcionários da Prefeitura estavam organizados para retirar suas propagandas das ruas. Seu comitê foi invadido na calada da noite e material de campanha foi queimado. O conflito virou um forte documentário que em 2006 seria indicado ao Oscar.
Nos últimos dias tenho lido notícias ruins sobre Newark. Com pouco mais de um ano e seis meses no governo – após impactante vitória em maio, com 76% dos votos – Cory está vivendo uma espécie de segundo turno, com um bombardeio dos derrotados, agora na sociedade civil e nas entidades ligadas à polícia. Mais de 160 assassinatos elevaram as taxas de criminalidade e insegurança. No último fim de semana, adolescentes morreram em um conflito armado em uma escola pública. A polícia e a máquina municipal, nas mãos dos opositores por 16 anos está dando a resposta às políticas agressivas de Cory, que demitiu quase 200 servidores em uma ampla reforma administrativa. A máquina está mergulhada em corrupção e aparelhada pelo ex-prefeito – me disse um de seus assessores.
Newark está na páginas do New York Times outra vez, não pela renovação e renascimentos prometidos pelo jovem prefeito, mas pelas mesmas manchetes que desde 1968 marcaram o lugar como um dos mais violentos dos Estados Unidos.
O Desafio de Cory Booker se parece muito com o novo prefeito do Rio que vamos eleger em 2008. Políticos que herdam máquina e equipe de outros que estão no poder há mais de dois mandatos – no caso, há 16 anos – sempre enfrentam as estruturas e sub-máquinas internas, desenvolvidas e alimentadas muitas vezes por militantes partidários, alguns conectados com parlamentares e chefes locais.
Cory está fazendo a movimentação correta: chamou a imprensa, mobilizou universidades, está presente em cada local onde crimes ocorrem, conversando com policiais e identificando os boicotes internos. Hoje li no NYT que ele foi muito aplaudido em uma rua da ” barra pesada” da cidade, um dos locais que ele havia prometido intensificar o policiamento. Ele está lutando contra as gangs de rua e as de dentro do governo, contra as forças policiais criminosas dentro da máquina municipal – que lá por lei são administradas pela prefeitura. Ele precisa enfrentar os apadrinhado do ex-prefeito que ficaram para boicotar e as organizações montadas pelos opositores para infernizar sua administração. É muito trabalho pela frente, mas com certeza em poucos meses o resultado será positivo, como foi com Giuliani na década de 90.
Quem quiser acompanhar de perto as chance de um Prefeito em sobreviver em terreno minado deve olhar com atenção aos desdobramentos dessa experiência de Newark. É um caso para observar e aprender.
Marco Fonseca, 12 de Agosto de 2007
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Perfil de Cory Booker no New York Times e matérias relacionadas
Acredito que o Próximo Prefeito realmente vai encontrar esse problema que seu amigo está enfrentando. A máquina do Cesar não vai ser desativada e provavelmente será usada na candidatura dele a Senador. Olho neles !
Na mosca. As máquinas partidárias e eleitorais inviabilizam os planos de reforma do Estado. É preciso enfrentar essas gangs internas formadas por governos de longa duração
A.Anjos, UERJ
Um bom tema para pensar. Arrumar a casa é sempre difícil.
Depois de 16 anos no poder a máquina de Cesar dificilmente também sairá de cena. Haja estômago.
Bom, dá aquela nítida sensação de…..já ví esse filme…muda-se os cenários + os personagens e as vezes até as histórias continuam as mesmas. Não é facil!Haja estômago mesmo….
Muito boa análise e ótima visão dos problemas que o próximo prefeito carioca vai enfrentar. Embora aqui no Brasil a polícia não seja municipalizada, teremos problemas na área administrativa e regionais por conta da atuação das máquinas eleitorais dos vereadores que o prefeito financiou por anos.
A partir dessa análise podemos perceber que a violência e a corrupção não são coisas somente de nosso país. Mas para se ter de volta o Rio tranqüilo, vai depender muito da boa vontade dos políticos e isso eu acho que eles não têm.
Ótima análise