Sete de setembro outra vez
Um asfalto escaldante nos esperava na Rua Domingos Lopes. Eu e Jane marchávamos seguindo o lento ritmo da banda de música, vestidos com um uniforme cor de vinho que odiávamos. Era manhã em 1982. O Brasil assistia “A mulher do tenente francês”, Brizola despontava nas pesquisas após a volta do exílio e nós – aos 17 anos – descobríamos a democracia e o amor.
O desfile já ia começar e Jane não parava de falar. Éramos um namoro que não vingou, daqueles que viram grandes amizades, confidentes, cúmplices. Jane me apresentou ao misticismo, ao espiritual. Uma vez fomos a uma casa de uma de suas amigas, uma egiptóloga e ainda hoje me lembro do forte cheiro de incenso, das estátuas na estante e dos nossos olhares surpresos. Enquanto amigos me levavam a comícios, Jane me empurrava para os astros e o desconhecido. Mas naquele sete de setembro não queria falar de política, queria apenas terminar aquele desfile e ir para a praia. Queria viver a liberdade e independência. O desfile de sete de setembro nos aproximava da imagem do fim do ano e não sabíamos que a vida nos iria separar. Passamos todo aquele ano certos de que nada iria nos separar.
Muitas vezes prometemos que vamos continuar nos vendo, mas a vida nos leva para tantos e diferentes caminhos que fica difícil levar todos para o mesmo lugar. Vamos perdendo amigos como se fossem cadernos de escola, amontoados em estantes, alguns que nunca mais vamos ver. Mudamos de casas, de empregos, de amores e vamos perdendo esses cadernos. Naquela época, sem Internet nosso círculo de amigos que estavam em contato eram só os que estavam perto fisicamente. Só me lembro que em algum momento nos separamos.
Durante 25 anos o sete de setembro me lembrava Jane e seus óculos, aquele uniforme vinho insuportável, o desfile que nunca acabava, o cheiro do incenso naquela manhã. Desisti de achar Jane ainda na década passada, quando sai do Brasil e achei que não voltaria a ver minha caixa de correspondência – o único sobrevivente das minhas mudanças. Mantida pela família, a caixa estava abandonada até a semana passada quando resolvi matar as saudades e ver as cartas que recebi naquela década. Lá estão postais, cartões de natal, bilhetes de amigos, fotos, muitas coisas que durante anos me recusei a abrir, para não ficar chateado em ter perdido tanta gente ao longo do caminho.
Foi exatamente nesse sete de setembro, 25 anos depois daquela primavera de 1982 que abri a caixa para ler novamente as cartas e listar os nomes das pessoas que gostaria de ver novamente. Uma carta de Jane, um postal de Elmar, uma cartinha de Suely, um bilhete de Aldo – amigo que se foi em 1999. Tanta gente perdida no caminho que muitas vezes pensei em parar de ver aquilo. Sabia que seria difícil ler aquelas cartas – respirei fundo e segui garimpando, lendo e me emocionando. Decidi que Jane seria minha prioridade, mas tudo que tinha era saudade e uma carta amarelada de 1982. Quando a gente vai envelhecendo as lembranças passam a nos acompanhar nos filmes de fantasmas que possuem histórias inacabadas.
Localizei Jane no Orkut no mesmo sete de setembro, 25 anos depois. Nos emocionamos ao telefone, falamos da vida e de tudo que aconteceu nessas duas últimas décadas. Ela tem dois filhos, está divorciada e ainda vive no mesmo lugar. Vamos nos encontrar e comemorar a tecnologia que nos deu essas ferramentas tão poderosas para unir pessoas. Há alguns meses fui a um encontro de amigos da minha infância e adolescência, quase todos localizados pelo orkut e e-mails.
Jane deu gritos de alegria a frente do computador quando me viu. Sua filha, com olhar surpreso perguntou por tanta emoção. Ela – que pertence a uma geração que está conectada aos amigos virtualmente, pode se mudar, pode ir pra China que seguirá se comunicando com quem quiser. Nossa geração – disse a Jane – está desfrutando de algo que não nos pertence como geração. Estamos deslumbrados ainda com tanta tecnologia e possibilidades. Ainda sentimos saudades dos cartões de natal, dos bilhetes escritos, dos envelopes com selo. Ainda achamos que os amigos perdidos não poderão ser encontrados. Ainda não descobrimos todos os recursos que o futuro nos proporcionará.
Agora que estamos conectados nada poderá nos separar – compactamos emocionados. Jane e todos amigos, de todas as épocas, com todas as cartas e cartões são os registros de nossas vidas, nosso museu virtual. É um sete de setembro que marca minha definitiva independência da saudade.
Emocionante ! Que inveja da Jane !!!!
AS lembranças são nosso maior patrimônio. Parabéns pelo excelente texto e por resgatar as amizades do passado. Me inspirou a fazer o mesmo.
Beijos
Sempre um bom texto…