Borboletas e Girassóis
Muitas vezes fui perguntado por amigos estrangeiros como seria possível um país multicolorido, alegre e sensual como o Brasil produzir políticos tão cinzentos, azedos, carrancudos e baixo astral. Os verdes, que apareceram no inicio dos anos 80, eram a grande esperança de que podíamos produzir uma nova geração e campanhas lúdicas e ” brasileiras” na alma. Salvo a criativa campanha de Gabeira, em 1986, com suas borboletas transparentes e coloridas e um abraço a lagoa, pouca coisa divertida aconteceu na política carioca. Lembro-me das bandeiras, dos adesivos, das divertidas manifestações que inventávamos apenas com papel crepon e cartolina. Uma vez passei na cinelândia e o verde Carlos Minc – hoje no PT – estava vestido de árvore sendo ” cortado” por motoserras, me emocionei ainda no final dos anos 80 com o Lula lá, em uma Rio Branco coberta de bandeiras e esperança. No início dos anos 90 ainda fomos presenteados pela campanha em que artistas comandados por Djavan cantavam ” Será..será..Benedita”.
Muitos alternativos, saltimbancos e despudorados foram aos poucos se tornando engravatados, chatos, ajustados e partiram para as receitas tradicionais das campanhas movidas à militância paga, esquemas de boca-de-urna milionários e carros de som com jingles pouco criativos. Não é só um fenômeno carioca ou brasileiro, a política em todas as democracias modernas cada dia mais perde militantes e ganha profissionais e marqueteiros. No Rio, um novo fenômeno: a bancada ideológica – daqueles vereadores que pensam a cidade pela lente das idéias – foi reduzida a quase zero. No plenário multiplicam-se políticos com sobrenome de bairros ou de profissões. Poucos pensam a cidade como um todo. Hoje o Rio foi distritalizado pela apatia e assistencialismo.
Não quero generalizar, sei que centenas de candidatos aparecem e desaparecem de quatro em quatro anos com propostas inéditas e Minc continua divertido, mas poucos jovens talentos conseguiram cavar espaço na mídia e muito menos ainda sobreviver ao rolo compressor das máquinas partidárias. Os que dominam os partidos costumam lotear os espaço na TV com os nomes de sempre.A renovação está limitada aos filhos dos parlamentares. Sobreviver a essa guerra interna do injusto sistema proporcional não é tarefa para quem tem formação ideológica – o colega de partido vira o inimigo a derrotar.
É dentro desse contexto de desânimo que poderíamos enfrentar as eleições municipais de 2008 se não fosse um ativista chamado Cláudio Nascimento. Ele é minha maior esperança de reviver as boas campanhas dos anos 80. Já havia lido sobre sua incansável luta pelos direitos civis para a comunidade GLBTT, mas nunca tinha acompanhado de perto seu trabalho. Como não sou militante da causa, tinha cristalizado um pensamento típico da velha esquerda: a luta de mulheres, gays, negros e ecologistas representava apenas segmentos e que mudanças sociais profundas precisam de lutas mais complexas e com mais atores envolvidos. Existem preconceitos que ainda precisamos vencer, não é?
Fui conviver com Cláudio no exercício do poder: fomos colocados lado a lado no governo do Estado e precisávamos, juntos, enfrentar diversas situações, algumas que nos levaram a compartilhar dos mesmos desafios. O respeito e admiração mútua transformou nossa relação em parceria. Seriedade, correção, visão da obtenção de poder para pulverizá-lo. É um modelo de gestor, que vê além de seu gabinete.
Cláudio Nascimento é candidato do movimento GLBTT e desejo que ele leve a Câmara Municipal toda a vitalidade, diversidade e cor de suas lutas. Ele sabe que ainda precisa incorporar todos os heterossexuais, negros, brancos, de ambos os lados do túnel. Sabe e está disposto a fazê-lo. O Rio precisa de um vereador orgânico para essa Câmara tão cheia de figuras transgênicas, de mandatos comprados, de gente que não sabe o que é pensar a cidade como um todo. Estou animado em poder voltar a usar borboletas de plástico – e girassóis que segundo ele seria um belo símbolo de campanha.
Cláudio e sua trupe de corajosos guerreiros contra a homofobia levaram mais de um milhão para as ruas há poucas semanas. Agora que há um milhão atrás do trio elétrico os políticos cortejam a multidão e seu sorriso, mas na época que caminhavam com meia-dúzia poucos arriscavam perder voto apoiando uma causa tão polêmica. Ele é um ativista maduro que sabe que o sucesso atrai, mas parece estar ciente e imune ao estrelismo porque o êxito chegou engatinhando.
Pode ser o inicio de um novo tempo, muitas borboletas que simbolizam a mudança e girassóis que vão iluminar a escuridão da política carioca. Claudio Nascimento é meu candidato.
Eu também usei a borboleta do Gabeira. Bons tempos !! Espero que o Cláudio nos lidere a esse novo tempo, de muitas borboletas e girassóis.
Os bons tempos estão de volta? Não sei, mas queria acreditar. Qual o site dele?
Marco, bom dia. Seu texto está ótimo, viu? Ele foi resumido, perfeitamente traduzido, no que diz respeito aos seus sentimentos e anseios de cidadão, quando definiu – muito bem! – a diferença entre os candidatos “transgênicos” e “orgânico”.
Não sei, meu amigo, mas ainda acho, intuo, que ainda vamos passar um bom bocado, caso a nossa nação tenha ques se reorientar e buscar o seu verdadeiro destino.
Abração.
Fica com Deus.