Gabeira e a criminalização da política

2008 Outubro 28
by mafc

No fim, todo herói se torna um chato. Emerson

O fenômeno dessa campanha eleitoral não foi a “Onda Verde” que invadiu as áreas mais nobres e antenadas da cidade. A maior – e pior – contribuição da candidatura verde-tucana foi o aprofundamento de um entendimento na classe média de que partidos, alianças e política tradicional são necessariamente coisas ruins e nefastas. O culto ao anti-político incorporado pelo Deputado Fernando Gabeira fez renascer um sentimento muito comum nos anos 60 no período que antecedeu o golpe militar – um discurso fácil para conquistar os indignados, éticos e desencantados com a política. Esse ” Lacerdismo” esconde sempre o interesse político travestindo-se de indignação moral, associado à manipulação dos ingênuos de sempre, notadamente da classe média, artistas e jovens.

A campanha de Gabeira , personalista, tentou a todo custo ressucitar esse sentimento de repulsa pelo jogo político e a certo ponto conseguiu.  Ele também encheu a campanha até o final de frases de  efeito e incitou jovens a sentirem nojo da politica ” tradicional”, dos acordos e alianças – ações legítimas e claras em uma democracia. Esse estilo “Lacerda” – que Cesar também fez ressucitar com êxito na luta eleitoral contra Benedita em 1992 – é de muito fácil acesso às elites da cidade, cansada de ver suas periferias com poder. O ex-governador do Rio era também muito conhecido por suas frases de efeito e factóides. Em 1955, disse na televisão que “Juscelino não será candidato; se for candidato, não será eleito; se for eleito, não tomará posse; se tomar posse, não governará”.

Muito me preocupou ver no domingo de eleição centenas de jovens de classe média alta, a maioria brancos, com bandeiras verdes, histéricos, como se fossem salvar o mundo. Muitos reagindo com agressões verbais aos adversários que apostam no campo tradicional. Já vivemos muitas experiências salvadoras vendidas como alternativas e sabemos quanto isso é perigoso. O processo de despolitização e de criminalização da política é a pior contribuição que um líder moderno e antenado como Gabeira diz ser poderia dar a sua cidade. Desmoralizar as políticas de aliança e classificá-las como corruptas e imorais é um desconhecimento dos instrumentos de composição na formação de governos em um Estado democrático, organizado com partidos livres. No parlamentarismo, por exemplo, é vital que existam coalizões. Essa fórmula de composição direta com a população, sem passar por partidos e pela sociedade organizada já foi também explorada por várias experiências autoritárias e populistas em todo o mundo, com vários nomes que prefiro nem citar.
Ao contrário da brilhante e criativa campanha de 1986 – quando Gabeira fez o Rio abraçar a Lagoa, dessa vez a campanha dos verdes nos deixou um triste legado: milhares de jovens entraram na militância política acreditando que partidos e alianças são coisas ruins, que são conchavos. A divisão do poder pelos que ganham as eleições passa a ser então uma ação criminosa entre bandidos. Como disse um excelente texto do jornalista Noblat, do O GLOBO “Gabeira se comportou ao longo da campanha como se somente ele conhecesse a verdade. Parecia mais preocupado em provar uma tese do que em vencer”
Espero que essa tese não seja da criminalização da política partidária, porque ele – que já defendeu candidaturas autônomas e que já declarou ter uma difícil relação com seu partido – poderá ser uma futura referência nessa campanha contra a articulação política, que deixará nossa democracia mais frágil ainda.
É uma coincidência do destino que logo ele – que lutou em armas contra ditadura – tenha inventado uma metralhadora do descrédito.

9 Respostas leave one →
  1. 2008 Outubro 28
    Teresa Pontual permalink

    Acredito que há alianças e alianças… Claro que política não se faz sozinho, isolado, sem comunicação com seus aliados e opositores. A própria candidatura do Gabeira, como você mesmo diz, foi uma aliança do PV com o PSDB, entre outros partidos que ousaram opor as forças governantes do PT e do PMDB. Muito mais do que condenar (ou metralhar como você diz) as alianças espúrias e vinculadas a cargos, promessas e concessões, como são as do nosso prefeito-eleito, Eduardo Paes, a candidatura do Gabeira devolveu ao Rio a esperança de que ainda há espaço para a ideologia na política. Mesmo não contando com o apoio financeiro ou com a ajuda da máquina de governo, mesmo conduzindo uma campanha limpa e transparente–o que sabemos que são receitas perdedoras num ambiente eleitoral corrompido como o nosso–Gabeira chegou muitíssimo perto da vitória. Para uma coisa serviu essa enorme perda para a cidade, serviu para mostrar aos que saíram vitoriosos que pelo menos metade dos eleitores dessa cidade estão cansados dessa política personalista de trocas e favores e quer uma política de alianças, sim, mas alianças comprometidas com uma visão comum de futuro para o Rio de Janeiro.

  2. 2008 Outubro 29

    eheheh que Bobeira esse texto. O PT e PCdoB são prostitutas. Se vendem por cargos. Nào vai falar que tem como defender o apoio do PT ao PMDB, ja basta Bene ter sido vice de Garotinho. So respeito o PSOL e Suplicy. Se vc acha que a onda verde foi coisa de playboy é pq vc nao viu o resultado. Ele foi bem em todo o Rio, ele deu banho na Zona Sul.

  3. 2008 Outubro 29
    Tania maria permalink

    Concordo. Essa onda verde me lembra um filme chamado ” A onda” que fleta com o fascismo ao estimular aos jovens a acharq ue todo acordo político e aliança é ruim. O comentarista acima ao dizer que o PT e o PCdoB se vendem por cargos desconhece os acordos de Gabeira com Cesar Maia que sempre foram pautados por cargos seja no meio-ambiente como no urbanismo. Esquerdismo é uma doença infantil.

  4. 2008 Outubro 29
    Débora Silva Teixeira permalink

    Marco acertou me cheio. A colega Tania Maria tem razão, parece com o filme ” A Onda”, todos hipnotizados achando Gabeira o salvador do mundo, como se todos os outros fossem prostitutas atrás de cargos. Por acso Gabeira iria governar com quem??? Alguém aqui conhece as práticas da turam de Cesar Maia, Marcello Alencar e do Sirkis que estavam no QG do verde? Santa ingenuidade…….

  5. 2008 Outubro 29
    Baroly permalink

    Gabeira cospe no prato em que comeu…em 86, se o PT não desse o apoio na sua candidatura para governador, não haveriam “braços suficientes” para o abraço da Lagoa.
    O QG do “verde” terão que amadurecer bastante!

  6. 2008 Novembro 3

    São bons motivos para ter votado no EPa e concordo que devemos ficar de olho para não haver uma criminalização da aliança política, mas o que eu mais vi em resposta à campanha do Gabeira foi um clamor por seriedade, coerência e confiança no engajamento do político.

    Creio que a maioria que votou no Gabeira o fez por tê-lo visto como alguém que realmente estava comprometido com seus compromissos políticos com o povo e a cidade.

    Antes dele as eleições aqui no Rio era “votar no menos ruim” e praticamente não havia quem acreditasse nos políticos, com a campanha do Gabeira talvez isso mude.

    Temos que deixar de tolerar o boca de urna, a oferta de merendas em troca de votos e os santinhos com a foto de um candidato e o número de outro.

    Sem esperança de um político que esteja lá para cumprir com uma tarefa em vez de estar galgando posições políticas em busca de salários maiores e mais poder acabamos mergulhando na apatia política, vamos às urnas e votamos em qq um.

    Enfim, creio que o seu alerta é importante, mas não concordo com os temores em relação aos poderes ocultos por trás da campanha de Gabeira, parece mais com medo de mudança!

  7. 2008 Novembro 3
    Pedro permalink

    Lamento, mas a comparação do Gabeira com o Lacerda é absurda.

    Lacerda tentou derrubar Getúlio, tentou impedir a posse de JK e Jango e conseguiu derrubar Jânio Quadros. Pouco tempo depois estava na Frente Ampla, com JK e Jango.

    Ou seja: chutou, chutou, chutou e depois virou aliado.

    Parece até um prefeito eleito que eu conheço…

  8. 2008 Novembro 3
    Santos permalink

    Não vi comparação entre Lacerda e Gabeira e sim sobre a onda verde e o lacerdismo. Eu concordo, acho boba e moralista chata essa campanha dos verdes, para atingir um público inocente que não sabe das picaretagens do Sirkis e sua trupe e do financiamento das antigas campanhas do Gabeira que eram bancadas pela Dalva Lazaroni e seus empresários da baixada.

  9. 2008 Novembro 4

    Eu discordo bastante do artigo. O Gabeira não lutou por uma bandeira de ser o único ético. Ele agiu com ética. Tem uma diferença enorme nisto!

    Quem levantou a bandeira do “eu sou a ética” foi o PT e vimos no que deu!

    Acho que a crítica ficou bastante deturpada da realidade!

    Opinião minha!

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