A reinvenção do cacique e outras tribos
Uma das primeiras lembranças do carnaval que tenho é de um quintal, nos fundos de uma casa em Cascadura, onde comprávamos bexigas para completar nossa fantasia de bate-bola ou morcego. Estávamos no início dos anos 70 e a zona forte fervilhava no carnaval de rua. Meus primos mais velhos desfilavam orgulhosos no “Cacique de Ramos” e falavam mal da turma do “Bafo da Onça” outro dos tradicionais blocos da cidade. Meus olhos brilhavam quando aquela centenas de indios e indias apaches cruzavam a rua florentina em direção a estação, de onde saiam os trens lotados para a Central. As escolas de samba na época ainda não tinham virado atração principal e os blocos reinavam os quatro dias, arrastando multidões.
O carnaval tinha cheiro de bexiga de boi pendurada no varal para secar, de máscara de gesso e jornal, de roupa de baiana arrastada no asfalto. Eu, ainda menino, seguia com meus olhos pela grade do muro as tribos do cacique descendo a ladeira. Ramos era minha praia, literalmente, de águas ainda limpas, para onde íamos em ônibus lotados com uma bolsa de sanduiches de pão com ovo, limonada e café. Era um inferno as longas filas em Olaria, os corpos suados e salgados, salpicando areia nos assentos, mas em nenhuma época posterior ir a praia seria tamanha aventura. Assim como o Cacique, Ramos foi morrendo aos poucos até virar somente lembrança.
Mais de 30 anos depois, me vejo na Avenida Rio Branco, agora sem as barras de ferro do velho muro da rua florentina, vendo o Cacique passar: um grupo de apaches faz uma fogeira e salta, cantam e dançam em torno dos fogos, trimulam bandeiras. O povo parece gostar, as novas gerações compram roupas e camisas e entram nas alas e bateria. Quando eu era criança o bloco chegou a ter 10 mil participantes e depois foi caindo, junto com o carnaval de rua e quase desapareceu nos anos 80. Se morresse levaria boa parte da história do carnaval. Muitos dos artistas do samba, ao gravarem seus discos, iam procurar sambas novos na roda do Cacique. Fundado em 1961, lá foi o laboratório de Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila, Almir Guineto, Jovelina Pérola Negra e outros. Beth Carvalho, a madrinha, nos deu sambas sensacionais.
“O Cacique de Ramos é um dos responsáveis pela última grande guinada na história do samba”, já disse Marcelo D2. Pra mim, nesse carnaval de 2009, vendo a Rio Branco lotada e vestida de indio, não tive dúvidas. O cacique é a minha tribo.
Documentário sobre o bloco “Cacique de Ramos”
Beth Carvalho canta “Vou festejar” (Jorge Aragão / Dida / Neoci) Cacique de Ramos no Fantástico (Globo) em 1978