
No início dos anos 70 meu pai me trouxe de volta ao Rio após cinco anos vivendo próximo a velha estação de Juiz de Fora. Pegávamos desde 1965 a “littorina”, trem de madeira que ligava o Rio às montanhas de Minas Gerais. Meu pai, ferroviário, estava orgulhoso de trabalhar no edicício D. Pedro II, a Central do Brasil, de onde saiam e chegavam todos os trens da capital do país. De lá, na década anterior havia presenciado o comício das reformas de base, com João Goulart, que antecedeu o golpe militar. A Central era o coração do Brasil.
O tempo passou, meu velho partiu da estação bem antes de ver sua “Central” nos cartazes do Oscar. Sempre que passava por lá confesso que sentia uma mistura de sentimentos: boas e más lembranças da vida difícil de filho de ferroviário. O prédio me lembra gloriosos tempos da ferrovia, do orgulho dos funcionários públicos, das mesas de jacarandá e pesos de cristal para segurar os papeis. Como em um filme me vejo de novo visitando a “repartição” onde trabalhavam meu pai e avô, quando ainda meus olhos não alcançavam as mesas, o cheiro da goma arábica que selava as cartas, o papel carbono e a música das máquinas de escrever. Muito correto meu pai jamais deixou que eu levasse para casa nem mesmo envelopes usados e canetas da “repartição” Dizia ele que eram coisas públicas, que deveríamos ter carinho com isso. Atribuo a ele minha educação para o serviço público e a minha indignação com o desperdício e com funcionários que penduram o paletó na cadeira, sem trabalhar.
Agora, aos 43 anos recebo a notícia que a “repartição” que coordeno no estado será transferida para a Central do Brasil e que vou circular e trabalhar no mesmo lugar que o velho Adalberto e seu Euclides – meu avô, viveram toda suas vidas profissionais. Foi lá, na plataforma, que meu pai conheceu minha mãe, de onde trago as primeiras lembranças e noção de trabalho e vida. Ele ficou tão relacionado aquela estação que ganhou o apelido de “central” entre nossos vizinhos da distante estação de Oswaldo Cruz, onde viveria o resto de sua curta vida.
Com certeza vou ter ar condicionado, computadores e tudo que outras gerações que trabalhavam por lá nunca tiveram. Não verei mais goma arábica, nem escutarei a orquestra das máquinas, nem a sirene anunciando o final do expediente. Minha próxima parada não é saudosismo e nem passado. A estação segue lá com toda sua beleza art-deco, com suas paredes de madeira nobre, com corredores de mármore. Centenas viveram e passaram por lá. Muitos esbanjadores, mas também muitos como seu Adalberto, que sabiam que todo aquele patrimônio era fruto do suor de milhões de trabalhadores.
Volto a Central, dessa vez sozinho, sem a mão firme e madura a me carregar, sem papel carbono e carimbos nas mesas que agora estão visíveis. Minha próxima estação é o desafio de honrar todos aqueles que passaram por lá, que tiveram seus sonhos e que partiram, como o “seu” Adalberto sem ver o trem do futuro chegar.

Voluntários do "Joga Limpo" : criatividade por uma cidade melhor
A primeira vez que cheguei em Buenos Aires, no início dos anos 90, tive contato com as primeiras máquinas de leitura ótica nos supermercados, moeda estável e com a modernização da cidade para receber estrangeiros. Também foi lá que vi uma política migratória responsável, organizada e que não recusava trabalhadores qualificados, ao contrário do que testemunhei em vários anos nos EUA. Todas as vezes que visitei a capital argentina vi coisas novas, experiências comunitárias bem sucedidas e imaginei como seria aplicá-las no Brasil.
Foi durante meu tempo de estudante na UBA – a Universidade de Buenos Aires, em 1993 – que conheci os primeiros pesquisadores sobre comportamento no ciberesapaço na América Latina, cujos textos e idéias que me influenciam até hoje. A cidade tem sido um lugar onde vou periodicamente recarregar minhas baterias e buscar inspiração.
Agora após 20 anos de contato com Buenos Aires e suas inovações, acompanho uma criativa ação da prefeitura: um mutirão de limpeza que envolve a todos, que regata a idéia de que vivemos em um grande condomínio, onde somos responsáveis pela manutenção da cidade. A campanha ” Buenos Aires Joga limpo” sugere a energia dos esportes para convencer e educar a população sobre a necessidade de manter as calçadas e praças limpas. A campanha financiada pelo poder público municipal e empresas parceiras possui uma característica interessante que é a interatividade.
O movimento elaborou com a sociedade civil um site com o “mapa da limpeza” que informa diariamente a agenda de eventos com música, teatro, esportes e ações sociais voltadas para o tema. A cidade foi dividida em várias zonas e em cada uma delas centenas de voluntários se mobilizam para vender a idéia. Os resultados estão nas calçadas e nas praças. Buenos Aires, mesmo diante de crise, volta a ser a cidade limpa e florida que encantou a gerações de turistas.
A campanha conta seus participantes que estão cadastrados – até o momento mais de 15 mil voluntários – e usa esse banco de dados para mobilização. Há também um site destinado a crianças, com o objetivo de sensibilizar os pequenos para a necessidade de manter a cidade limpa e organizada. É uma boa referencia para nossos futuros prefeitos. Incluir a população nas campanhas, de forma criativa e lúdica é a melhor - e mais barata – solução para obter resultados positivos nas megacidades.
Mais uma vez Buenos Aires aponta um caminho. Quem será que vai aproveitar essa idéia?
No fim, todo herói se torna um chato. Emerson
O fenômeno dessa campanha eleitoral não foi a “Onda Verde” que invadiu as áreas mais nobres e antenadas da cidade. A maior – e pior – contribuição da candidatura verde-tucana foi o aprofundamento de um entendimento na classe média de que partidos, alianças e política tradicional são necessariamente coisas ruins e nefastas. O culto ao anti-político incorporado pelo Deputado Fernando Gabeira fez renascer um sentimento muito comum nos anos 60 no período que antecedeu o golpe militar – um discurso fácil para conquistar os indignados, éticos e desencantados com a política. Esse ” Lacerdismo” esconde sempre o interesse político travestindo-se de indignação moral, associado à manipulação dos ingênuos de sempre, notadamente da classe média, artistas e jovens.
A campanha de Gabeira , personalista, tentou a todo custo ressucitar esse sentimento de repulsa pelo jogo político e a certo ponto conseguiu. Ele também encheu a campanha até o final de frases de efeito e incitou jovens a sentirem nojo da politica ” tradicional”, dos acordos e alianças – ações legítimas e claras em uma democracia. Esse estilo “Lacerda” – que Cesar também fez ressucitar com êxito na luta eleitoral contra Benedita em 1992 – é de muito fácil acesso às elites da cidade, cansada de ver suas periferias com poder. O ex-governador do Rio era também muito conhecido por suas frases de efeito e factóides. Em 1955, disse na televisão que “Juscelino não será candidato; se for candidato, não será eleito; se for eleito, não tomará posse; se tomar posse, não governará”.
Muito me preocupou ver no domingo de eleição centenas de jovens de classe média alta, a maioria brancos, com bandeiras verdes, histéricos, como se fossem salvar o mundo. Muitos reagindo com agressões verbais aos adversários que apostam no campo tradicional. Já vivemos muitas experiências salvadoras vendidas como alternativas e sabemos quanto isso é perigoso. O processo de despolitização e de criminalização da política é a pior contribuição que um líder moderno e antenado como Gabeira diz ser poderia dar a sua cidade. Desmoralizar as políticas de aliança e classificá-las como corruptas e imorais é um desconhecimento dos instrumentos de composição na formação de governos em um Estado democrático, organizado com partidos livres. No parlamentarismo, por exemplo, é vital que existam coalizões. Essa fórmula de composição direta com a população, sem passar por partidos e pela sociedade organizada já foi também explorada por várias experiências autoritárias e populistas em todo o mundo, com vários nomes que prefiro nem citar.
Ao contrário da brilhante e criativa campanha de 1986 – quando Gabeira fez o Rio abraçar a Lagoa, dessa vez a campanha dos verdes nos deixou um triste legado: milhares de jovens entraram na militância política acreditando que partidos e alianças são coisas ruins, que são conchavos. A divisão do poder pelos que ganham as eleições passa a ser então uma ação criminosa entre bandidos. Como disse um excelente texto do jornalista Noblat, do O GLOBO “Gabeira se comportou ao longo da campanha como se somente ele conhecesse a verdade. Parecia mais preocupado em provar uma tese do que em vencer”
Espero que essa tese não seja da criminalização da política partidária, porque ele – que já defendeu candidaturas autônomas e que já declarou ter uma difícil relação com seu partido – poderá ser uma futura referência nessa campanha contra a articulação política, que deixará nossa democracia mais frágil ainda.
É uma coincidência do destino que logo ele – que lutou em armas contra ditadura – tenha inventado uma metralhadora do descrédito.