Próxima parada, Central do Brasil

2009 Janeiro 30
por mafc

dpedro40al

No início dos anos 70 meu pai me trouxe de volta ao Rio após cinco anos vivendo próximo a velha estação de Juiz de Fora. Pegávamos desde 1965 a “littorina”, trem de madeira que ligava o Rio às montanhas de Minas Gerais. Meu pai, ferroviário, estava orgulhoso de trabalhar no edicício D. Pedro II, a Central do Brasil, de onde saiam e chegavam todos os trens da capital do país. De lá, na década anterior havia presenciado o comício das reformas de base, com João Goulart, que antecedeu o golpe militar. A Central era o coração do Brasil.

O tempo passou, meu velho partiu da estação bem antes de ver sua “Central” nos cartazes do Oscar. Sempre que passava por lá confesso que sentia uma mistura de sentimentos: boas e más lembranças da vida difícil de filho de ferroviário.  O prédio me lembra gloriosos tempos da ferrovia, do orgulho dos funcionários públicos, das mesas de jacarandá e pesos de cristal para segurar os papeis. Como em um filme me vejo de novo visitando a “repartição” onde trabalhavam meu pai e avô, quando ainda meus olhos não alcançavam as mesas, o cheiro da goma arábica que selava as cartas, o papel carbono e a música das máquinas de escrever. Muito correto meu pai jamais deixou que eu levasse para casa nem mesmo envelopes usados e canetas da “repartição” Dizia ele que eram coisas públicas, que deveríamos ter carinho com isso. Atribuo a ele minha educação para o serviço público e a minha indignação com o desperdício e com funcionários que penduram o paletó na cadeira, sem trabalhar. 

Agora, aos 43 anos recebo a notícia que a “repartição” que coordeno no estado será transferida para a Central do Brasil e que vou circular e trabalhar no mesmo lugar que o velho Adalberto e seu Euclides – meu avô, viveram toda suas vidas profissionais. Foi lá, na plataforma, que meu pai conheceu minha mãe,  de onde trago as primeiras lembranças e noção de trabalho e vida. Ele ficou tão relacionado aquela estação que ganhou o apelido de “central” entre nossos vizinhos da distante estação de Oswaldo Cruz, onde viveria o resto de sua curta vida. 

Com certeza vou ter ar condicionado, computadores e tudo que outras gerações que trabalhavam por lá nunca tiveram. Não verei mais goma arábica, nem escutarei a orquestra das máquinas, nem a sirene anunciando o final do expediente. Minha próxima parada não é saudosismo e nem passado. A estação segue lá com toda sua beleza art-deco, com suas paredes de madeira nobre, com corredores de mármore. Centenas viveram e passaram por lá. Muitos esbanjadores, mas também muitos como seu Adalberto, que sabiam que todo aquele patrimônio era fruto do suor de milhões de trabalhadores.

Volto a Central, dessa vez sozinho, sem a mão firme e madura a me carregar, sem papel carbono e carimbos nas mesas que agora estão visíveis. Minha próxima estação é o desafio de honrar todos aqueles que passaram por lá, que tiveram seus sonhos e que partiram, como o “seu” Adalberto sem ver o trem do futuro chegar.

Buenos Aires agora “joga limpo”

2008 Novembro 26
por mafc
A campanha criativa " jogue limpo" toma conta da cidade

Voluntários do "Joga Limpo" : criatividade por uma cidade melhor

A primeira vez que cheguei em Buenos Aires, no início dos anos 90, tive contato com as primeiras máquinas de leitura ótica nos supermercados, moeda estável e com a modernização da cidade para receber estrangeiros. Também foi lá que vi uma política migratória responsável, organizada e que não recusava trabalhadores qualificados, ao contrário do que testemunhei em vários anos nos EUA. Todas as vezes que visitei a capital argentina vi coisas novas,  experiências comunitárias bem sucedidas e imaginei como seria aplicá-las no Brasil.

Foi durante meu tempo de estudante na UBA – a Universidade de Buenos Aires, em 1993 – que conheci os primeiros pesquisadores sobre comportamento no ciberesapaço na América Latina, cujos textos e idéias que me influenciam até hoje. A cidade tem sido um lugar onde vou periodicamente recarregar minhas baterias e buscar inspiração.

Agora após 20 anos de contato com Buenos Aires e suas inovações, acompanho uma criativa ação da prefeitura: um mutirão de limpeza que envolve a todos, que regata a idéia de que vivemos em um grande condomínio, onde somos responsáveis pela manutenção da cidade.  A campanha  ” Buenos Aires Joga limpo” sugere a energia dos esportes para convencer e educar a população sobre a necessidade de manter as calçadas e praças limpas. A campanha financiada pelo poder público municipal e empresas parceiras possui uma característica interessante que é a interatividade.

O movimento elaborou com a sociedade civil um site com o “mapa da limpeza” que informa diariamente a agenda de eventos com música, teatro, esportes e ações sociais voltadas para o tema. A cidade foi dividida em várias zonas e em cada uma delas centenas de voluntários se mobilizam para vender a idéia. Os resultados estão nas calçadas e nas praças.  Buenos Aires, mesmo diante de crise, volta a ser a cidade limpa e florida que encantou a gerações de turistas.

A campanha conta seus participantes que estão cadastrados – até o momento mais de 15 mil voluntários – e usa esse banco de dados para mobilização. Há também um site destinado a crianças, com o objetivo de sensibilizar os pequenos para a necessidade de manter a cidade limpa e organizada. É uma boa referencia para nossos futuros prefeitos. Incluir a população nas campanhas, de forma criativa e lúdica é a melhor  -  e mais barata – solução para obter resultados positivos nas megacidades.

Mais uma vez Buenos Aires aponta um caminho. Quem será que vai aproveitar essa idéia?

Gabeira e a criminalização da política

2008 Outubro 28
por mafc

No fim, todo herói se torna um chato. Emerson

O fenômeno dessa campanha eleitoral não foi a “Onda Verde” que invadiu as áreas mais nobres e antenadas da cidade. A maior – e pior – contribuição da candidatura verde-tucana foi o aprofundamento de um entendimento na classe média de que partidos, alianças e política tradicional são necessariamente coisas ruins e nefastas. O culto ao anti-político incorporado pelo Deputado Fernando Gabeira fez renascer um sentimento muito comum nos anos 60 no período que antecedeu o golpe militar – um discurso fácil para conquistar os indignados, éticos e desencantados com a política. Esse ” Lacerdismo” esconde sempre o interesse político travestindo-se de indignação moral, associado à manipulação dos ingênuos de sempre, notadamente da classe média, artistas e jovens.

A campanha de Gabeira , personalista, tentou a todo custo ressucitar esse sentimento de repulsa pelo jogo político e a certo ponto conseguiu.  Ele também encheu a campanha até o final de frases de  efeito e incitou jovens a sentirem nojo da politica ” tradicional”, dos acordos e alianças – ações legítimas e claras em uma democracia. Esse estilo “Lacerda” – que Cesar também fez ressucitar com êxito na luta eleitoral contra Benedita em 1992 – é de muito fácil acesso às elites da cidade, cansada de ver suas periferias com poder. O ex-governador do Rio era também muito conhecido por suas frases de efeito e factóides. Em 1955, disse na televisão que “Juscelino não será candidato; se for candidato, não será eleito; se for eleito, não tomará posse; se tomar posse, não governará”.

Muito me preocupou ver no domingo de eleição centenas de jovens de classe média alta, a maioria brancos, com bandeiras verdes, histéricos, como se fossem salvar o mundo. Muitos reagindo com agressões verbais aos adversários que apostam no campo tradicional. Já vivemos muitas experiências salvadoras vendidas como alternativas e sabemos quanto isso é perigoso. O processo de despolitização e de criminalização da política é a pior contribuição que um líder moderno e antenado como Gabeira diz ser poderia dar a sua cidade. Desmoralizar as políticas de aliança e classificá-las como corruptas e imorais é um desconhecimento dos instrumentos de composição na formação de governos em um Estado democrático, organizado com partidos livres. No parlamentarismo, por exemplo, é vital que existam coalizões. Essa fórmula de composição direta com a população, sem passar por partidos e pela sociedade organizada já foi também explorada por várias experiências autoritárias e populistas em todo o mundo, com vários nomes que prefiro nem citar.
Ao contrário da brilhante e criativa campanha de 1986 – quando Gabeira fez o Rio abraçar a Lagoa, dessa vez a campanha dos verdes nos deixou um triste legado: milhares de jovens entraram na militância política acreditando que partidos e alianças são coisas ruins, que são conchavos. A divisão do poder pelos que ganham as eleições passa a ser então uma ação criminosa entre bandidos. Como disse um excelente texto do jornalista Noblat, do O GLOBO “Gabeira se comportou ao longo da campanha como se somente ele conhecesse a verdade. Parecia mais preocupado em provar uma tese do que em vencer”
Espero que essa tese não seja da criminalização da política partidária, porque ele – que já defendeu candidaturas autônomas e que já declarou ter uma difícil relação com seu partido – poderá ser uma futura referência nessa campanha contra a articulação política, que deixará nossa democracia mais frágil ainda.
É uma coincidência do destino que logo ele – que lutou em armas contra ditadura – tenha inventado uma metralhadora do descrédito.