Biografia

livro

Um Carioca da gema, sempre no olho do furação


Por Sílvio Barsetti – Agência Estado

Ele nasceu em uma noite chuvosa, quase inundação, em sete de julho de 1965. Era um hospital público na Penha, no coração do Rio de janeiro. Foi lá, longe das belezas naturais da cidade, em bairros de operários, trens lotados e de samba, que passou infância e juventude. Aos 16 anos o primeiro emprego e o desafio de enfrentar o outro lado da cidade partida. Cruzava a megalópole de trem, ônibus e metrô para poder estudar e vencer a invisibilidade dos que nasceram programados para virar mão de obra barata das oficinas e fábricas.
Filho de ferroviário e muito popular na região de Oswaldo Cruz e Madureira, berço da Portela, Marco Fonseca conviveu, graças a ele, com a velha guarda, sambistas e figuras históricas. Acho que dai veio o gosto pela cultura popular, as letras bem construídas e a poesia que só o samba de raíz pôde dar.
Foi lá também, nas ruas mal cuidadas, nas praças e ruas abandonadas que fez grandes amigos, muitos dos quais carrega na agenda até hoje. Sempre volta, por mais longe que esteja, para visitar e reviver as lembranças da infância, recordar os antigos caminhos e acompanhara vida das pessoas que gosta. Não se esquece que um dia esteve naquela estação de trem, nas festinhas juninas, nas quermeces da igreja de São Mateus, nas corridas de carrinho de bilha. O mundo suburbano lhe deu a percepção de que se há valiosas coisas na vida são as relações que estabelecemos com os lugares e pessoas que passam por nossos olhos. Hoje, quando volta e vê os filhos dos seus amigos brincando nas calçadas de bandeirinha e jogando bola percebe que pouca coisa muda e muitas das coisas se repetem. Ainda vivemos como nossos pais.

Em 1982 se encantou com uma coisa chamada eleição. Havia passado toda a infância proibido de falar em política na escola e a volta dos exilados o deixou impressionado. Brizola, Gabeira e todos os que voltaram despertaram a curiosidade para entender que coisa era aquela, que paixão movia aquelas pessoas. Eram como heróis saídos de filmes, voltando para nos salvar. Em uma tarde de setembro de 1983 foi apresentado ao Partido Comunista, em uma reunião clandestina que funcionava atrás de uma livraria na Rua das Marrecas. Não gostou da história de partido único, mas reconhece que eles foram militantes fundamentais para a volta da democracia e estavam contaminados pelo senso de justiça e democracia que carregada milhares de jovens para a militância política naqueles anos 80.

Se encantou pela mensagem de um grupo de argentinos e brasileiros na Cinelândia. Foi por esse grupo que, meses depois o iria escolher candidato a prefeitura, nas primeiras eleições diretas da história da cidade do Rio de Janeiro. Com cerca de 19 mil votos e com uma campanha muito original, a candidatura – pelo Partido Humanista (PH) foi um sucesso.

O ano de 1987 marcou o início sua vida profissional: foi contratado para trabalhar na Secretaria Municipal de Saúde, em um projeto de expansão e implantação de postos na zona oeste. Fonseca foi servidor municipal por 13 anos, trabalhando em diferentes projetos e convidado a ocupar cargos de direção e assessoria. Viu a cidade falir em 1987 e se recuperar na década de 90. Transitou em diversas secretarias como cultura, governo e urbanismo. Foi da equipe de um dos mais prestigiadas administrações de saúde da cidade Dr. Ronaldo Gazolla e de uma das mais elogiadas gestões da área cultura,, com Helena Severo. Nesse período ajudou a criar o tele-saúde, implantar Internet nas bibliotecas públicas, publicar guias e dar assistência aos cidadãos. Foi um período muito difícil, mas de grande experiência no poder público municipal.

Nos anos seguintes, jornalismo comunitário, manifestações, campanhas e paixões. Mesmo após muitas vitórias na política, nas eleições posteriores, só voltaria a ser candidato cerca de 15 anos depois. Em 1999, recém saído do curso de sociologia da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – leva ao PV uma proposta de uma candidatura virtual, o cybervereador e a candidatura coletiva mediada por computador. Foi uma das idéias mais interessantes da política carioca, segundo vários especialistas e cientistas políticos.

Mesmo não sendo um “verde” a proposta era receber uma legenda para fazer a experiência virtual. Antes da banda larga, do orkut e ainda conectado a um modem e linha telefônica. Fonseca tinha certeza de que um dia a Internet seria fundamental na atividade política fato que a cada dia se confirma. Foi chamado de louco por muitos que hoje estão no horário eleitoral falando em democracia e inclusão digital. Durante este período também estudou em Londres e Buenos Aires. Se lançou cidadão do mundo, lançou uma comunidade virtual pioneira na luta contra o discurso de ódio na Rede, a webjustice.

Após o fim da campanha de 2000, Fonseca foi convidado pelos Verdes a assumir o cargo de diretor do centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, o único da América Latina dedicado ao tema. Seu primeiro ato foi criar um Conselho Gestor e implantar o primeiro orçamento participativo em uma unidade da prefeitura do Rio, inspirado nas experiências do PT. Durante a breve gestão, além de democratizar o acesso ao CAU, iniciou o Projeto “Arquiteto de Família” em parceria com a Urbanista Mariana Estevão, que posteriormente seria sua companheira na formação da ONG Soluções Urbanas. Uma série de conflitos pessoais e políticos com os “verdes”o levaram a pedir demissão do cargo em julho de 2001. Após 13 anos de serviço público, sem nenhum processo administrativo, falta ou irregularidade, deixou o serviço público municipal, decepcionado com a gestão da Secretaria de Urbanismo.

Em 2001, Marco se afastou da política local e foi trabalhar em um projeto de uma novo jornal em Nova York, o Brazilian Link. A experiência foi interrompida pelos acontecimentos pós 11 de setembro, que acompanhou como testemunha ocular,provendo amigos no Brasil de brilhantes crônicas. Em 2002 se transfere para a Kearny (NJ) e Harrison (NJ) e começa a editar e colaborar com os jornais Brazilian Press e “The Global News”. No período 2003 -05 trabalha como consultor no American English Center, uma das mais conceituadas instituições brasileiras de ensino de inglês nos EUA e é promovido a diretor de uma unidade na Flórida, coordenando cursos para estudantes latinos e imigrantes, além de auxiliar brasileiros que foram estudar nos Estados Unidos. Na cobertura diária da vida dos brasileiros e latinos conhece o jovem vereador Cory Booker e se envolve na campanha para prefeitura. Derrotado por apenas 3 mil votos, Booker foi eleito em 2006 – também com sua colaboração – com 76% dos votos. A campanha de 2002 acabou virando um interessante documentário e foi indicada ao Oscar em 2006. Em um período de três anos Marco percorreu 12 estados norte-americanos e visita 116 cidades.

Volta ao Brasil em 2006 e participa da coordenação da Campanha vitoriosa do Presidente Lula no Estado do Rio de Janeiro, assessorando a ex-governadora e Senadora Benedita da Silva. É convidado por ela para assumir a Ouvidoria da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos. A SEASDH coordena todas ações sociais para idosos, jovens, mulheres e população em situação de risco, além de monitorar programas de segurança alimentar e desenvolvimento social de grande porte para os 92 municípios do Estado.

Sempre assim, no olho do furação.

4 Respostas leave one →
  1. 2007 Agosto 31
    Carla Isadora UERJ permalink

    Excelente texto. Nada como uma vida bem vivida !

  2. 2008 Janeiro 25
    Edna Sônia UFRJ/Fiocruz permalink

    Tenho acompanhado a trajetória de Marco Fonseca e não me surpreendo pelas suas realizações porque é um profissional que sempre “justificou” sua presença e passagem por onde passou, de forma brilhante, desenvolvendo projetos e coordenando equipes com destaque e êxito, não só na execução de seus trabalhos como, também, na liderança de seus subordinados, “virtude” rara hoje em dia.

  3. 2008 Fevereiro 9
    Carlso Henrique passos permalink

    Fonseca é uma unanimidae em relação ao pioneirismo em relação a democracia digital. É dele meu voto em 2010.

  4. 2008 Fevereiro 15
    Amélia Ribeiro permalink

    É um caso raro de honestidade no trato da coisa pública. Parabéns !

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